MONTALVÃO - Alto Alentejo              
Escrita / Palavras / Sons / Costumes
Introdução
Pessoalmente, já tinha pensado na criação de algo que ficasse registado para as gerações vindouras e para memória futura, como sejam as expressões e sons utilizados na fala diária dos habitantes da localidade que me viu nascer (dez/1952), e que me transmitiu conhecimentos e hábitos que nunca irei esquecer.
Neste contexto, é de enaltecer e de agradecer aos responsáveis por esta iniciativa e por este desafio, aos quais desde já endosso o meu muito obrigado, para além de estar também grato àqueles que têm manifestado uma demonstração de vontade e uma intervenção direta nas Gentes de Montalvão no âmbito das áreas Culturais, Sociais, Económicas, Institucionais, Lúdicas e Agrícolas. Para além de agradecer também a todos aqueles que têm dado o seu contributo através das Redes Sociais ou de outra forma relacional para que tal desafio e iniciativa tenham um final enriquecedor para as Gentes de Montalvão.
Obrigado a todos.

As regras, as palavras, as frases, as expressões e os jogos abaixo indicados são exemplo dos costumes das Gentes de Montalvão. Trata-se de um modelo que associa a escrita ao som.
Reconheço que muitas palavras há e muitas frases e sons haverão que não constam aqui, pois este trabalho é apenas um contributo e não um documento final.
O aqui exposto, resultante das minhas memórias, pode conter algumas imprecisões, ficando assim aberto a sugestões e alterações. Não me sinto e nem sou detentor de toda a verdade e conhecimento.
Mais uma vez, muito obrigado.
Descrição Sintética da Prolação Usada
- Linguagem corrente com dicção muito rápida e com uma sonoridade própria;
- Omissão de vogais na palavra (“O que tiraste daí?” -> O que t’réste daí?   );
- Substituição da prolação do ditongo por outra prolação (pão ->    );
- Substituição da prolação de algumas sílabas por outra prolação (endireitar -> indrêté   );
- Encurtamento da duração sonora de alguns ditongos (cães -> cãs   );
- Termos específicos para uso local e do conhecimento local (gadapêre    = pereira brava/catapereiro);
- Na forma Infinitiva dos verbos, a letra final “r” era suprimida na prolação corrente (formar -> formá   ).
Regras Fonéticas
De um modo geral (ou quase sempre) a letra r no final da forma infinitiva verbal não era pronunciada:
- Formar - Formá  
- Sorrir - Sorri  
Formas verbais terminadas em ar (infinitivo), pronunciavam-se á ou é:
- Falar - Falá  
- Namorar - Namorá  
- Ficar - F’qué  
- Dependurar - D’pinduré  
- Jogar - Jugué  
- Fintar - Finté  
- Ceifar - Ceifé  
- Avisar - Av’zé  
- Coçar - Côçá  
- Fumar - Fumé  
- Enxugar - Inxugué  
Exemplo da conjugação do pretérito perfeito dos verbos Ficar e Dependurar:
- Ê f’quê; tu f’quéste; oule f’cou; nós f’quémos; vós f’quéstes; oules f’querim.  
- Ê d’pindurê; tu d’pinduréste; oule d’pindurou; nós d’pindurémos; vós d’pinduréstes; oules d’pindurérim.  
Formas verbais terminadas em er (infinitivo), pronunciavam-se ou ou oi:
- Comer - C’mou - C’moi  
- Tender - Tandou  
- Sofrer - Sofrou - Sofroi  
Formas verbais terminadas em ir (infinitivo), pronunciavam-se i com omissão do r:
- Rir - Ri  
- Parir - Pari  
Formas verbais terminadas em or (infinitivo), pronunciavam-se ô com omissão do r:
- Por -   
Formas verbais terminadas em ur (infinitivo) - (Desconheço!)
A forma verbal “Eu fui....!” pronunciava-se “Ê foi.....!”  
A forma nominal Gerúndio dos verbos raramente era usada ou quase nunca.
Exemplo: “Estou cantando” substituía-se por “Estou a cantá”.  
Mudança de som na prolação da palavra:
- O som en passa a an: Pensar – Pansá  
- O som en passa a in: Enfim – Infim  
Associação de consoante no final da palavra com a vogal no início da palavra seguinte (do Francês?):
- Os teus olhos! - Os tê zolhes!  
- Faz aquilo! – Fá zaquile!  
O vocábulo Não integrado numa frase tinha a prolação nom  (do Francês?), exceto quando resultava de uma simples resposta para negar:
Pergunta: - Estiveste ali?
Resposta: - ou nam! (em vez de Nom).  
O ditongo ei tinha o som ê ou ou:
- Espreitar - Esprêté  
- Direita - D’rêta  
- Peito - Pête  
- Peixe - Pouxe  
O som de ê passa a ou:
- Carreta - Carrouta  
- Pêssego - Poussegue  
- Foguete - Fogoute  
O ditongo oi raramente se utilizava, sendo substituído pelo ditongo ou:
- Loiça - Louça  
- Coiro - Coure  
- Toiro - Toure  
Excetua-se o vocábulo monossilábico boi, que mantinha a mesma escrita e prolação.
O ditongo ão pronunciava-se ã ou am:
- Cão – Cam  
- Melão – MolãMolam  
- Mão – Mam  
Palavras (ex.: substantivos e adjetivos) terminadas em al, el, il, ol e ul passavam, respetivamente, à forma plural ales, eles, iles, oles e ules:
- Canal – Canales  
- Jornal – Jornales  
- Panal – Panales  
- Tal – Tales  
- Papel – Papeles  
- Cordel – Cordeles  
- Batel – Bateles  
- Barril – Barriles  
- Funil – Funiles  
- Cachecol – Cachecoles  
- Caracol – Carécoles  
- Azul – Azules  
Palavras terminadas com a letra o pronunciava-se e ou simplesmente omitia-se o o:
- Isso – IsseIss  
- Aquilo – AquileAquil  
- Pato – PatePat  
- Macaco – MacaqueMacaq  
- Cansado – CansadeCansad  
- Rio – Ri  
Termos infantis:
- O cão(cadela) – O ão-ão  
- O bichinho – O b’chinhe  
- O porco(a) – O f’qué - f’qué  
- O gato(a) – O miau-miau  
- A ovelha(carneiro) – O mé-mé  
- A galinha (galo) – O pi-pi  
- É carne (alimento) – É xixa  
Algumas Frases/Expressões
Ache que vás gostá diste!  
Acho que vás gostar disto!
Ávié a vida  
Aviar a vida (Defecar; Evacuar)
Carre d’alugué!  
Carro de aluguer!
Chá Jaquina  
Srª Joaquina (tratamento de cortesia)
Chá Maria  
Srª Maria (chamamento; tratamento de cortesia)
Chá Marisdé  
Srª Maria José (tratamento de cortesia)
Dámecá os palites páçandou o lume!  
Dá-me os fósforos para acender o fogo! (Fogo da lareira)
D’quim áqué ousse quinzinhe? Nom sê!   
De quem é esse cãozinho? Não sei!
É zum málázade!  
És um maljeitoso!
Êlhééér!  
Olhai! O que vem a ser isto? O que se passa?
Esc’munguéda f’gura!  
Excomungada figura! (Amaldiçoar alguém)
Estã a batou as trindédes! Nom ouves?  
Estão a bater as trindades! Não ouves? – (Trindades = Toque dos sinos para informar o início da reza das ave-marias ou para chamar os fiéis para tal).
Estã a tocá as matinas! Escúta!  
Estão a tocar as matinas! Escuta! – (Matinas =Toque da manhã nos sinos da Igreja (badaladas), ao começo do dia).
Está zaí um borrefól!  
Estás aí um fracote (dito com graciosidade).
Está zaí um cágátilhes!  
Estás aí um fraco! És um fraco!
Estou cá com’as fézes!  
Estou com preocupações!
Estou com sôltúra!  
Estou com soltura! (Soltura = diarreia)
Hoje tá uma calorina que só ap’tece bôboi água!  
Hoje está muito calor que só apetece beber água!
Iste estámunte amlancade!  
Isto está muito amolgado!
Já lá vai Ti Manél? Cá vames Joã!  
Já lá vai Sr. Manuel? Aqui vamos João (saudação entre duas pessoas ao cruzarem-se num caminho/rua/estrada)
Leva zuma coça quê já te digue!  
Levas uma coça que eu já te digo!
M’tade  
Metade
Nom dás gatilhe!  
Não tens jeito! Não tens vocação!
Nom foste av’zéde prou casamente?  
Não foste avisado/convidado para o casamento?
Nom inxergas nada!  
Não enxergas nada!
Nom qué zantrá?  
Não queres entrar?
Nom s’ouve o relóge da Tôrre! O vente mudou! Está do lade da chuva!  
Não se ouve o relógio da Torre! O vento mudou! Está do lado da chuva! (Trata-se do bater das horas no relógio da Torre da Igreja; não se ouviam os toques porque o vento soprava de NW, W, SW ou S).
Nom ta limpes ou lence d’assoá!  
Não te limpes ao lenço de assoar!
Nom tem zatadêre!  
Não tens atadeiro (Não tens habilidade; não prestas atenção)
Nom tem zolhos pra voi?  
Não tens olhos para ver?
Nom vás ou bat’zéde?  
Não vais ao batizado?
O que estandes a bôboi?  
O que estais a beber? O que bebeis?
O que estandes a fazoi?  
O que fazeis? O que estais a fazer?
O que tem za dzoi?  
O que tens a dizer?
O que tem za dzou?  
O que tens a dizer?
O que tréste daí?  
O que tiraste daí?
O que vós vandes a fazoi?  
O que vós ides a fazer?
Ondáq fôste? Fôi ávié a vida!  
Onde foste? Fui a aviar a vida! (Fui defecar; evacuar)
Ondáq f’quéste? F’quê ali!  
Onde ficaste? Fiquei ali!
Ondáq vás, Tónhe? Vou a regá a horta, a pô um pouque d’água nos t’matêres e a dêté a viend’ous pórques!  
Onde vás António? Vou a regar a horta e a por água nos tomateiros e a deitar (dar) a vienda (comida) aos porcos!
Ondáq vázávantá isse?  
Onde vás aventar isso? (Aventar: Atirar (o grão) ao ar para que o vento o limpe; em Montalvão = Deitar fora, deitar no lixo).
Ôoooo....  
Está alguém em casa?
Os tê zolhes!  
Os teus olhos!
Ou chá mulhé!  
Senhora, por favor! Abordar ou chamar alguém, mulher, do qual se desconhece o nome.
Ou ti óme!  
Senhor, por favor! Abordar ou chamar alguém, homem, do qual se desconhece o nome.
Oulhalaouuu!  
Então, o que vem a ser isto? (expressão de admiração com a demonstração de algum escárnio)
Quim qué r’água?  
Quem quer água?
Quim quer bôboi?  
Quem quer beber?
Sim êra nim bêra!  
Sem eira nem beira! (Sem rumo, sem direção)
Tá z’imbáxe da escaida de côlhou azêtona!  
Está debaixo da escada de colher azeitona (trabalho rural)!
Tás cá com’a cara de pouques amigues!  
Estás com uma cara de poucos amigos!
Tenhe vontá’de lançá fóra!  
Tenho vontade de lançar fora! (Lançar fora = vomitar)
Ti Antónhe  
Srº António (tratamento de cortesia)
Ti Manél  
Srº Manuel (tratamento de cortesia)
Ti Zé  
Srº José (tratamento de cortesia)
Vá zá missa?  
Vais à missa?
Váza dêté ardou?  
Vás a “deitar” arder? (Acender/atear o forno comunitário; fogo normalmente alimentado com a planta esteva (xara))
Vou a brinqué ca minha roda de férre!  
Vou brincar com a minha roda de ferro!
Vou a brinqué co’mê carrinhe d’arame!  
Vou brincar com o meu carrinho de arame!
Vou a m’jé!  
Vou a mijar! Vou mijar!
Jogos Praticados
Jogo do fonche (jôgue do fonche   ). Vamos jogar ao fonche (vameza jugué ou fonche   ).
Composto por um objeto de madeira, de forma cilíndrica, (vulgo pau), com a dimensão de 20-30 cm de comprimento e o diâmetro de 1-2 cm, com uma das extremidades pontiaguda para poder perfurar o solo previamente humedecido. Dimensões variáveis.
Jogo da pata (jôgue da pata   ). Vamos jogar à pata (vameza jugué à pata   ).
Composto por 2 objetos de madeira, de forma cilíndrica, (vulgo paus):
- Um, mais comprido, com a dimensão de 30-40 cm de comprimento e o diâmetro de 1-2 cm, com uma das extremidades pontiaguda;
- Outro, menor, com a dimensão de 10-15 cm de comprimento e o diâmetro de 1-2 cm, com ambas as extremidades pontiagudas.
Jogo das pedrinhas (jôgue das p’drinhas   ). Vamos jogar às pedrinhas (vameza jugué às p’drinhas   ).
Composto por pequenas pedrinhas (5 ?), cor clara (branca de preferência).
Jogo do pôrro (jôgue do pôrre   ). Vamos jogar ao pôrro (vameza jugué ou pôrre   ).
Jogo de atirar uma pedra maior, na posse do jogador, contra uma pedra menor.
Jogo do finto (jôgue do finte   ). Vamos jogar ao finto (vameza jugué ou finte   ).
O jogador, munido de uma moeda antiga (vintém), tentava derrubar ou aproximar-se de uma bala inativada colocada no chão na vertical.
Salto ao eixo (salta cavalinhe   ). Vamos saltar ao eixo (vameza jugué ou salta cavalinhe   ).
O jogador curvava-se para que outro saltasse por cima.
Jogar à apanhada (jôgué ágarrá/ágarráda   ). Vamos jogar à apanhada (vameza jugué ágarráda/ágarrá   ).
Como o próprio nome indica, trata-se de tentar apanhar outro jogador.
Jogo do berlinde (jôgue da buguélha   ). Vamos jogar ao berlinde (vameza jugué à buguélha   ).
Tradicional jogo do berlinde, só que tinha a particularidade do “berlinde” ou bugalho ter origem na árvore denominada carvalho. O bugalho não é fruto do carvalho. O bugalho resulta de uma resposta natural da árvore à deposição de ovos de vespa ou outro inseto nos seus ramos. Mas, também podem ocorrer pelo ataque de fungos, bactérias ou nemátodos.
Devido à picada do inseto, a árvore reage produzindo um desenvolvimento anormal dos tecidos. A forma, o tamanho, a cor e a composição dos bugalhos variam não só de acordo com as espécies de árvores afetadas, mas também consoante o tipo de inseto que as provoca.
Raramente vi berlindes de vidro na minha infância, a não ser a pequena bola que vinha dentro dos pirolitos (bebida: água gaseificada/gasosa dentro de uma pequena garrafa de vidro).
Jogo da macaca (jôgue do combói   ). Vamos jogar à macaca (vameza jugué ou combói   ).
Saltar com um só pé por dentro de quadrículas previamente desenhadas no chão.
Jogo da marca (jôgue da marca   ). Vamos jogar à marca (vameza jugué à marca   ).
Utilização de botões (marcas); botões com 2 ou 4 furos de utilização no vestuário.
Jogo do fa-fa-fum (jôgue do fafafum   ). Vamos jogar ao fa-fa-fum (vameza jugué ou fafafum   ).
Jogo praticado por jovens adolescentes (sexo feminino) durante o Carnaval, em que um dos participantes arremessava um pote de barro para outro participante.
Jogo do pião (jôgue do piém   ). Vamos jogar ao pião (vameza jugué ou piém   ).
Lançar um pião ao chão para ficar dentro de um círculo desenhado no chão.
Saltar à corda (saltá à corda   ). Vamos saltar à corda (vameza saltá à corda   ).
Praticado por uma ou mais crianças (meninas), saltando por cima de uma corda em movimento circular.
Esconde-esconde (jôgue da zescondidas   ). Vamos jogar às escondidas (vameza jugué à zescondidas   ).
Praticado por crianças (meninos e meninas) que se escondiam e eram procuradas por uma outra criança.

Os jogos da macaca, das pedrinhas, à apanhada e o esconde-esconde eram de prática mista (meninos e meninas), apesar dos jogos da macaca e das pedrinhas serem mais praticados por meninas. O jogo do fa-fa-fum era praticado por jovens do sexo feminino. Saltar à corda era estritamente feminino. Os restantes eram de âmbito masculino.
Outras atividades poderão ter sido praticadas, mas, de momento, não me recordo.
Responsável pelo conteúdo e página web: Mário Barreto (Nascido, dez/1952, e Criado em Montalvão)
Voz Áudio: Mário Barreto
Out/2020